A relação entre literatura e cinema foi o tema da oficina “Como os Livros se Tornam Filmes”, realizada na última sexta-feira (28), em São Caetano do Sul, dentro da programação do Pontos MIS. Ministrada pelo jornalista e crítico de cinema Marcelo Lyra, a atividade percorreu diferentes momentos da história da sétima arte e analisou como obras literárias são transformadas em roteiros e filmes.
Para o público da região do Grande ABC, a iniciativa ofereceu uma oportunidade de compreender os caminhos que uma história percorre até chegar às telas, além de aproximar leitores e espectadores de clássicos do cinema. A programação também prepara o público para a Mostra Alfred Hitchcock, que será realizada em setembro na cidade.
A ligação entre cinema e literatura começou praticamente junto com os primeiros experimentos cinematográficos. Durante a oficina, Lyra destacou a importância do francês Georges Méliès, que utilizou o cinematógrafo desenvolvido pelos irmãos Lumière para criar narrativas ficcionais.
Ainda nos primeiros anos do cinema, especialmente durante o período do cinema mudo, histórias já conhecidas pelo público facilitavam a compreensão das imagens. Méliès também explorou adaptações literárias e levou “Cinderela” às telas em 1899.
Com o desenvolvimento da indústria cinematográfica, algumas adaptações passaram a alcançar uma popularidade maior do que os próprios livros que as inspiraram. Um dos exemplos discutidos foi “Ardiente Paciencia”, do chileno Antonio Skármeta, que deu origem ao filme “O Carteiro e o Poeta”, lançado em 1994. Após o sucesso da produção, o livro passou a ser comercializado também com o título utilizado pelo filme.
Um dos principais momentos da oficina foi dedicado a “Rebecca”, clássico dirigido por Alfred Hitchcock e baseado no romance homônimo de Daphne du Maurier. A produção será exibida na quinta-feira (3), como parte da mostra dedicada ao cineasta.
A adaptação apresentou desafios para os roteiristas porque o romance é narrado em primeira pessoa, com a protagonista relatando suas experiências. Para transformar essa perspectiva em linguagem cinematográfica, situações e pensamentos presentes no livro precisaram ser convertidos em diálogos e cenas.
“Rebecca” também carrega uma curiosidade histórica que envolve a literatura brasileira. Publicado em 1938, o romance de Daphne du Maurier foi acusado de apresentar semelhanças com “A Sucessora”, livro lançado em 1934 pela escritora brasileira Carolina Nabuco.
As duas histórias acompanham uma jovem de origem humilde que se casa com um homem rico e aristocrático e passa a conviver com a presença marcante da esposa falecida. Antes da publicação de “Rebecca”, Carolina Nabuco havia enviado os originais de “A Sucessora” para avaliação de uma editora inglesa, mas a obra foi recusada.
A controvérsia voltou a ganhar força após o lançamento do filme de Hitchcock, em 1940. Segundo os relatos históricos apresentados na oficina, representantes jurídicos da produtora United Artists chegaram ao Brasil e ofereceram uma quantia para que Carolina Nabuco assinasse uma declaração atribuindo as semelhanças entre as obras a uma coincidência.
A escritora brasileira não aceitou a proposta e também não ingressou com uma ação judicial contra Daphne du Maurier. Décadas depois, “A Sucessora” voltou ao grande público ao ser adaptada como novela pela Rede Globo, em 1978, com roteiro de Manoel Carlos e Susana Vieira no papel principal.
A programação cultural de setembro em São Caetano inclui outros clássicos de Alfred Hitchcock. As sessões da Mostra Alfred Hitchcock acontecem no auditório da Secretaria de Cultura. Informações sobre datas, horários e demais atrações estão disponíveis na Agenda Cultural do município.

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